Sonhei com um menino, de uns nove anos aproximadamente.
Magro de cabelos pretos e pele branca. Com ligação ao Rei, ao reinado.
Ele morava em um castelo de pedras claras e paredes levemente tortas, em um lugar bonito. Uma cidadezinha de poucas ruas, em um vale cercado de montanhas altas e aspecto medieval. Muito pasto verde ao redor.
O castelo ficava destacado, entre a cidade e uma floresta. Havia no castelo um exército para a proteção do reinado, com cavaleiros e tudo mais que compõem um exército medieval.
Havia também neste lugar um dragão, enorme, com uma pele grossa, difícil de matar. Esse dragão varria o exército com relativa facilidade e atacava o castelo e a cidade com frequência. Mas o alvo principal do dragão era o menino.
O dragão atacava o castelo aleatoriamente, sempre com uma segunda intenção de matar o menino. E o menino percebeu que ele era o alvo e se borrava de medo.
O medo do menino alimentava ainda mais a vontade do dragão de o matar. O dragão se excitava em ver o menino apavorado, correndo para dentro do castelo. E o menino ia até a parte mais escondida do castelo.
O dragão sempre conseguia descobrir onde o menino estava escondido, como se o próprio menino dissesse ao dragão onde ele estava escondido, não importa o quão complicado fosse o acesso. E o dragão chegava cada vez mais perto do menino.
Cada vez que o dragão se esgueirava pelas portas do castelo para entrar nos salões, ele destruía grande parte do castelo, e consequentemente matava muita gente.
Mas o dragão começou a se frustrar, pois nunca conseguia matar o menino. Hora alguém salvava o menino, hora o menino se escondia em lugares inacessíveis do castelo.
Até que o inevitável aconteceu, o dragão encurralou o menino dentro do calabouço e não hesitou em atacar o menino. Mas o menino não se queimava com as chamas, nem se feria com os dentes e as garras.
Mas o dragão não desistia e voltou a encurralar o menino mais vezes dentro do castelo. E sempre que ele tentava novamente, e enorme era a destruição que ele causava. Então um desanimo começou a rodear os soldados, pois não conseguiam evitar que o dragão chegasse novamente ao menino. E cada vez que o dragão não conseguia matar o menino, acabava tendo que fugir para não dar chances para o exército o matar. O dragão parecia indestrutível.
Demorou muito para o menino perceber que o dragão nada podia contra ele, o medo bloqueava seu raciocínio. O dragão em sua arrogância não se deu conta (ou não aceitava) que não podia matar um simples menino. Quando o menino percebeu que nada lhe tinha acontecido depois de um ataque em que novamente ficou encurralado, passou a não se esconder mais. Todos ficavam pasmados e estarrecidos com a atitude do menino, pois não colaborava mais para com sua própria segurança. A esta altura todo o povo já tinha fortes suspeitas que o menino era sempre um alvo, mas relutavam acreditar que o dragão estava atrás de um simples garoto.
Na mente do dragão, ele, com todos estes ataques ao povoado, estava apenas dando um passeio, sem motivo específico, mas ficava seduzido pelo castelo e pelas pessoas que estavam lá dentro, principalmente os mais frágeis que tinham muito medo dele.
Para o dragão, afrontar o exército era apenas uma autoafirmação de que ele era superior e que permanecia superior com o passar do tempo. As vezes voava para outras direções em outras terras, mas apenas ali sentia que seu poder era eficaz, pois sempre conseguia fazer um estrago enorme, e em outros locais não tanto. Ele não se sentia um monstro, na consciência dele estava apenas interagindo à sua maneira com as pessoas.
Até que um dia o menino já um pouco maior e convencido que não podia ser ferido pelo dragão, resolveu afrontar o dragão durante um ataque ao castelo. Correu, gritou muito e atirou pedras, mas nem sequer chegou perto do dragão. Mas o dragão não gostou disso, ficou com raiva do menino que o insultou, afinal todos lhe atiravam lanças, mas nunca ninguém tinha gritado com ele ferozmente (as pessoas tinham medo de olhar para ele, quanto mais gritar com ele). O menino ganhou muito crédito com as pessoas com esse fato.
Depois desta cena inusitada, o dragão diminuiu bem seus ataques. Chegaram a pensar que haveria paz definitiva no reino. E o menino cresceu mais.
Mas novos ataques ocorriam de tempos em tempos, parecia que o dragão queria dizer “não se esqueçam de mim”. O menino perdia crédito.
Até que um certo dia, o dragão veio com toda a sua força a procura do menino. Mas o menino não existia mais, se tornou um homem. E o homem contra-atacou o dragão, o agrediu.
Desta vez, pela primeira vez, o dragão ficou acuado, teve que fugir para não morrer. O homem o espantou, e o dragão ficou furioso com o homem e com o reino.
Então nasceu no coração do homem um sentimento de humilhar o dragão. Ele não queria apenas matar o dragão, mas também o humilhar. E começou a se preparar e criar um exército mais forte para afrontar o dragão pela última vez.
Mas com o nascimento deste sentimento no coração do homem, algo estranho aconteceu: o dragão começou a ficar maior, mais forte e mais violento. E sempre superava as forças do homem.
Os sábios, observando esta cena, de o homem ficando mais forte para matar o dragão e o dragão ficando mais forte simultaneamente ao homem, alertaram a ele que havia alguma ligação entre ele e o dragão. Então o homem começou a pensar no que os sábios haviam dito enquanto treinava mais e mais. Ele pensou muitas coisas e pesquisou muito sobre sua vida e as histórias sobre o dragão. E ficava pensando sobre o motivo de o dragão nunca ter conseguido o matar, sendo que ele viu muitas pessoas morrendo por causa do dragão.
Até que um pensamento, uma ideia, tirou a paz do homem: e se ele realmente tivesse uma ligação com o dragão? Então pensou em uma experiência, matar o dragão de uma vez, fulminantemente, sem humilhá-lo. Acabar logo com aquilo.
E assim ele tentou, centenas de vezes. Foi até o ninho do dragão, atirou muitas vezes contra ele. Mas não conseguia atingir o dragão definitivamente, conseguia até feri-lo, mas não o matar. E esse impasse se tornou uma angústia muito grande. E todo o crédito que o homem tinha com o povo do reino caiu por terra, fico desmoralizado. Então outros homens começaram a se preparar para matar o dragão e roubar o prestígio que o homem tinha com o povo. Tentavam e morriam.
O homem, desolado, num certo dia, foi caminhando até o ninho do dragão, sem nenhuma arma ou proteção, para tentar entender o que estava acontecendo. O dragão o reconheceu e o agrediu, machucou muito o homem, mas o homem não morreu. Ficou apenas confuso, pois sua imunidade ao dragão tinha diminuído em partes. O exército o resgatou e o levou até o castelo, onde ele se isolou. Não mais fazia parte do exército, mas apenas observava os movimentos do exército para tentar acabar com o dragão...
...
Até onde eu consigo entender, e até hoje entendo que, o menino/homem e o dragão são a mesma pessoa (no caso eu). Mas apenas o menino pode dominar o dragão, o homem não. Pois o dragão e o menino são faces da mesma pessoa. Apenas a pureza e docilidade do menino pode diminuir, atenuar, enfraquecer a força do dragão. E eles só vão se separar na morte. Se matarem o dragão o menino/homem morre, se o menino/homem morrer o dragão também morre. O dragão odeia o menino, mas não pode lhe causar dano pois a pureza do menino é mais forte que a violência do dragão.
Outro entendimento pode ser: Não se pode ter duas caras. Como ambos são a mesma pessoa, essa apresenta sempre o menino, que obviamente por suas qualidades é sempre recebido nos "castelos" do mundo. Mas como um "Cavalo de Troia" o dragão vem junto no pacote. Todo atrito entre o menino e o dragão simboliza a pessoa tentando mostrar apenas o que as pessoas querem ver para ficar bem com elas. Talvez a saída mais adequada seja, não alimentar o dragão e alimentar o menino, mas sempre apresentar os dois, nunca apenas o menino ou apenas o dragão, pois como já dito, não se pode ter duas caras.
Sonhei com isto centenas de vezes desde minha infância, hora eu era o menino, hora eu era o dragão. Graças a Deus eu não vi o fim desta história nos sonhos. Há muitos e muitos detalhes que eu não consigo lembrar ou não sei ordenar para acrescentar, encaixar neste texto. Não tenho tido mais sonhos assim, graças a Deus.
Palavra que coincide com essa realidade:
"Disse-lhes Jesus: “Deixai vir a mim estas criancinhas e não as impeçais, porque o Reino dos Céus é para aqueles que se lhes assemelham”."
São Mateus, 19, 14
(Esse texto vai receber uma nova revisão em breve)
Nenhum comentário:
Postar um comentário